A volta da tela grande*

23/11/2009 às 0:08 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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* Reprodução da matéria escrita por João Bernardo Caldeira, para o Valor, do Rio em 20/11/2009

Depois de destinar os recursos iniciais do Fundo Setorial do Audiovisual (FSA) para produção, distribuição e comercialização, a Agência Nacional de Cinema (Ancine) concentra agora esforços na elaboração de um conjunto de medidas dedicadas à recuperação do mercado de exibição no país. Obtido com exclusividade pelo Valor, o “Programa de Expansão do Parque Exibidor de Cinema” traz um mapeamento detalhado do setor, desde o auge vivido nos anos 1970, mostrando as razões que levaram ao decréscimo no número de salas existentes. Discutido ainda em caráter reservado por um grupo de trabalho interministerial e pelo Conselho Superior de Cinema, o estudo aponta o surgimento de oportunidades de negócios com o crescimento do mercado consumidor interno, principalmente na classe C. Para aproveitar o cenário favorável e estimular investimentos, o programa prevê a concessão de linhas de empréstimo do BNDES e injeção de recursos do FSA. Entre as principais metas traçadas para os próximos quatro anos estão a abertura de 600 novas salas, a ampliação da venda de ingressos em 50% e a inauguração de pelo menos um cinema em todas as cidades com mais de 100 mil habitantes.

Num ano em que o cinema brasileiro comemora boas bilheterias, Juca Ferreira, ministro da Cultura, vê razões para a expansão dos horizontes do setor: “Voltamos a ter uma cinematografia de peso, produzindo cerca de 100 filmes por ano. Mas se queremos constituir uma economia do audiovisual, chegou a hora de trabalhar pela expansão do mercado exibidor”, afirma. O passo inicial foi dado na semana passada, com o lançamento do projeto “Cinema da Cidade”. Capitaneada pela Ancine, a iniciativa permite que os municípios apresentem propostas de abertura de salas para serem financiadas com recursos da União. As medidas mais vultosas do programa, no entanto, serão anunciadas somente no ano que vem. O objetivo central é criar condições atraentes para cativar não apenas exibidores, mas também empresários de outras atividades, como supermercadistas, administradores de shopping centers e imobiliárias. Também está sendo discutida a possibilidade de a Caixa Econômica Federal incluir a construção de salas na implementação de programas habitacionais. “Há um cenário de oportunidades na economia brasileira que ainda não foi enxergado pelo empresariado que lida com cinema”, avalia Manoel Rangel, diretor-presidente da Ancine.

Para viabilizar a abertura das 600 novas salas, foi estipulado um montante total de R$ 400 milhões. Como o custo de instalação por sala gira em torno de R$ 870 mil, a quantia pode não ser suficiente. Para fechar a conta, algumas ações complementares ajudariam a baratear a operação, como a isenção de tributos estaduais (ICMS), federais (PIS e Cofins) e municipais (IPTU).

Além disso, o governo quer estimular a fabricação de projetores digitais em Manaus, hoje importados ao preço de cerca de R$ 350 mil cada. A regulamentação da meia entrada e a instituição do vale-cultura também são apontadas como medidas necessárias para ampliar a receita e dar sustentabilidade aos novos empreendimentos.

A liberação de recursos estará reservada a localidades onde não haja cinemas em funcionamento. A intenção é trazer de volta os espectadores perdidos a partir da década de 1980, por fatores como a urbanização acelerada, a falta de ação governamental e a popularização da televisão, da internet e dos sistemas de home vídeo.

Para Juca Ferreira, a quem caberá a coordenação geral do projeto, a expansão do parque exibidor em áreas hoje à margem da indústria cinematográfica recupera uma vocação essencial do mercado nacional: “Todos os estudos mostram que, historicamente, o espectador de cinema no Brasil faz parte da classe C ou D. A ampliação da rede facilitará a inclusão dessa plateia”, afirma.

O investidor terá de desembolsar cerca de 10% de recursos próprios. A maior parte virá de empréstimos do BNDES e do FSA, além de investimento direto do próprio fundo. As condições de prazo, garantias e juros serão definidas de acordo com o risco do empreendimento analisado, explica Luciane Gorgulho, chefe do departamento de economia da cultura, entretenimento e turismo do BNDES. “A ideia é adequar as condições de financiamento à realidade dessas novas salas.” Ao banco caberá a gestão financeira e o planejamento do programa, além da administração das linhas de empréstimo.

Para facilitar o mapeamento das oportunidades e tornar o mercado mais transparente, será implementado um sistema de controle de bilheteria em todos os cinemas do território nacional. A intenção é suprir a inexistência de dados confiáveis.

Os números hoje disponíveis mostram que o espectador poderia frequentar mais os cinemas caso as entradas fossem mais acessíveis. Manoel Rangel diz que caberá ao empreendedor definir o preço do ingresso.

Apesar de o programa ser orientado pela intenção de beneficiar o produto audiovisual brasileiro, Rangel afirma que não será estipulada uma cota de exibição de filmes nacionais superior à atualmente estabelecida por lei. Supõe-se que a simples expansão do parque de exibição facilitará a ampliação do consumo de filmes brasileiros.

Nem Ancine nem BNDES pretendem determinar quais produções ocuparão as futuras salas, definição que será ditada pela lógica de mercado. De um lado, alguns produtores comemoram mais um filão que será aberto para filmes que hoje têm pouca visibilidade. De outro, há quem acredite que não haverá filmes suficientes para atender à nova demanda. Argumenta Carlos Eduardo Rodrigues, que dirige a Globo Filmes: “Necessitamos de mais filmes de cunho popular, porque não adianta nada ter novas salas se não há produções correspondentes a esse tipo de público.” Provavelmente, o lançamento do programa, em 2010, vai reavivar a discussão sobre “cinema comercial” e “cinema de linguagem”.

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