Direito à diversidade

31/01/2010 às 19:30 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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Por José Joffily, Murilo Salles e Lucia Murat (cineastas)

O cineasta, dramaturgo e ator Domingos Oliveira, em seu artigo na ultima quarta-feira no GLOBO , levantou questões importantes sobre a atual situação do cinema brasileiro. Uma discussão fundamental que deve continuar, pois esse cinema é de todos nós, espectadores e cineastas. Não somente porque trata de investimento do setor público, mas porque precisamos definir que cinema nós, brasileiros, queremos fazer e ver. Para nós, trata-se basicamente de defender o direito à diversidade.

Domingos Oliveira tem toda razão quando afirma que não há indústria de cinema no Brasil. Houve tentativas. Mas “indústria”, na concepção da economia clássica, não há. Não existe um “planejamento” industrial da produção, e não temos “prateleiras” para o “produto”, isto é, salas de cinema. Como podemos dizer que há “mercado de cinema” se existem apenas pouco mais de 2 300 salas de cinema no país! E se essas salas são ocupadas em 85% do seu tempo pelo produto importado? E, se não há qualquer legislação criando isonomia entre produto estrangeiro e nacional, o que existe em qualquer outro setor industrial no Brasil? O nosso circuito exibidor é concentrado, elitista e pratica uma política de preço que inviabiliza o acesso da maior parte da população brasileira às salas que existem. E, se não há mercado, não há indústria possível. Respeitamos os movimentos institucionais que desejam montar essa indústria, mas discordamos frontalmente da monocultura como proposta.

Essencialmente, o que queremos dizer é que o cinema brasileiro deve caminhar junto com o país, reproduzindo nas telas a pluralidade que é nossa marca registrada, a nossa força. O Brasil precisa de seus filmes, de seus pontos de vista variados, dessa diversidade, dessa alteridade. E essa necessidade foi sempre atendida por visionários, artistas, atores, técnicos, que proliferam talentosos e criativos por todo o país. Nunca fomos reconhecidos pela “capacidade de produção da indústria cinematográfica brasileira” ou pela qualidade de “gestão de cinema no Brasil”, mas, sim, pelo vigor da pluralidade de nossos filmes

Estamos hoje submetidos a “business plans”, “políticas de mercado” e “planilhas de resultados”. Tudo com a clara intenção de privilegiar os filmes que pretensamente vão atingir o público. Ironicamente, esses “pretensos filmes comerciais”, realizados através de incentivos fiscais, não são, como mostrou recente matéria no Segundo Caderno do GLOBO, em sua grande maioria, lucrativos. Os gestores desse dinheiro público mal aplicado acabam produzindo produtos híbridos, sem identidade, que nem se propõem a trabalhar artisticamente, nem se pagam, pois são arremessados, quando lançados, numa mentira chamada “mercado”.

Como resolver esse impasse? Não temos certeza, mas é preciso abrir esta discussão e apontar desde já o farisaísmo tecnocrata por trás da “política de mercado”.

O cinema brasileiro existe por causa de seus grandes filmes, pelo trabalho de seus cineastas, não pelo planejamento gestor de um pensamento industrial. E hoje, para os realizadores que tentam construir obras mais autorais, as dificuldades de conseguir recursos são imensas. Como disse Domingos em seu artigo e vimos confirmar, está cada vez mais difícil fazer filmes que sejam de conteúdo e tenham alguma personalidade simbólica.

Em suma, concordamos inteiramente com Domingos Oliveira quando aponta soluções em direção a um reinvestimento político e qualitativo da imagem internacional do cinema brasileiro. Isso só se faz com filmes bons, consistentes, de alta qualidade artística. E, por fim, a grande questão: hoje a discussão da sala de cinema como solução para o impasse do “mercado” pode soar como uma discussão bizantina. Não há cinematografia bem-sucedida no mundo sem uma parceria efetiva da televisão, no financiamento do cinema e na sua difusão. O resto são efemérides.

*Artigo publicado no Globo de 30 de janeiro de 2010

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